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RENATO DE ALVARENGA
ALVARENGA Renato de. POR ACASO. Prefácio de Caio de Assis. Trinidade, Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2017. 76 p. ilus. 14x21 cm. ISBN 978-85-7823-292-4
GIRASSÓIS
O girassol não deu certo:
escolhido com cuidado
(girassóis não são feitos para se venderem),
replantado com esperança
(girassóis não conhecem o futuro),
regado com lágrimas
(girassóis não se comovem):
o girassol não tinha de dar certo.
Agora que nada deu certo,
velamos seus restos de perto,
que a natureza não entende promessas
e se move alheia a nossos sentimentos:
de seu princípio a seu ocaso,
segue a loteria do acaso.
LAVOURAS
Quis o destino associar
o investidor americano
ao lavrador de Jataí
em um ambicioso plano.
Contudo, semanas sem chuva
assolaram a plantação,
deixando, sobre o solo seco,
espigas que nunca serão.
“It´s fate”, diz o americano,
pensando nas lavouras destruídas,
anos antes, pelos tornados de Iowa.
“Está feito?”, pergunta o matuto,
cavucando chão com o bico da bota.
É o destino,
tornado feitos,
fez-se passado.
ALVARENGA Renato de. LEMBRANÇAS SEM PASSADO. Apresentação por Ana Miranda. Rio de Janeiro, Oito e meio, 2014. 75 p. ilus. ISBN 978-85-63883-74-2
Passado
Que me seja concedido
Borrar sempre o meu passado,
Pois ele fica mais doce
Quando está desfigurado.
(Memórias envoltas em névoa
Acabam sempre vistas positivamente.
Os otimistas vão melhorá-las.
Pois é de sua natureza fazê-lo,
E os pessimistas vão lembrar-se de um passado
Mais brilhante que o real
Para justificar suas queixas
Contra o presente e o futuro.)
Embaçado o passado,
Os algozes começam a ter suas razões,
Os desafetos até possuem qualidades
E os inconvenientes já inspiram saudades...
Que eu possa borrar sempre o passado
E que o faça com crescente apuro,
Pois, praticando tal exercício,
Talvez aprenda a borrar o futuro.
Tragibela
Olhada assim, friamente,
Parece prestes a se descosturar
E tem tons arroxeados
Como os das fendas da bolacha do mar.
Quando busco lembranças
Que deveriam esconder-se aqui,
Não sei que devo ver:
Se um sujeito que chora ou um que ri...
De um balanço completo
De tudo que vivi com ela,
Resta, agora, somente
Esta cicatriz tragibela.
Quanto dura
Quanto dura um beijo de três minutos?
Um minuto sob a mira da pistola?
Um mergulho de trinta e três segundos?
A dura maratona de duas horas?
Para quem participa?
Para quem assiste?
Bendita duração:
dilata ou comprime acontecimentos,
arrasta o passado para o presente
(ou enterra-o onde nasceu)
e permite-nos escapar ao opressivo tempo
físico.
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Página publicada em 05 de outubro de 2026
Página publicada em 28 de setembro de 2026.
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